Plantando árvores em vasos

Grumixama

Uma forma de estabelecer uma relação com a natureza, para quem mora nas grandes cidades, é o cultivo de plantas. Tanto em casas como em apartamentos, pode-se fazer hortas, pequenos pomares e jardins. Com fins paisagísticos ou meramente para nosso prazer e alimentação. A ideia não é nova. Desde a antiguidade as pessoas cultivam plantas em ambiente doméstico. No caso de árvores plantadas em vasos há citações entre gregos, romanos, persas, egípcios e, mais recentemente, na Inglaterra, França, Itália e outros países.

Plantar árvores em vasos é ideal para jardins onde o espaço é limitado. Os benefícios desta atividade são inúmeros. Gera um efeito agradável e ornamental, mais valorizado ainda quando utilizados vasos decorados e com formatos harmônicos. É possível cultivar árvores mesmo em pequenos espaços, podendo ser facilmente deslocadas para lugares mais adequados ou quando as condições climáticas forem muito adversas. E, mesmo quando ocorre uma mudança de residência, podemos levar as árvores conosco.

Mas para começar nesta atividade é indicado estudar as espécies escolhidas e planejar bem o local a ser utilizado. Estou envolvido no plantio de árvores há pelo menos 3 anos. Tenho uma centena delas, plantadas nestas condições, no pátio de minha casa. E estou diariamente aprendendo pois trabalho em uma grande floricultura onde sempre estamos lidando com estas tarefas. Considero os seguintes itens importantes para o sucesso em uma atividade desta natureza: a planta, o vaso, a drenagem, a terra, o plantio, a irrigação e a adubação.

A planta : O cultivo em vasos permite que inúmeras árvores possam ser utilizadas com este fim. Mas ao adquiri-las devemos levar em consideração algumas características importantes da planta e noções técnicas do método que está sendo utilizado. O melhor é escolher uma planta de tamanho médio, com galharia bem formada e distribuída. As folhas devem ser saudáveis, sem a presença de doenças ou ataque de pragas. Plantas muito pequenas precisarão ser cultivadas em potes menores até serem transplantadas para o vaso que queremos. Em geral, precisa-se de uma área de 2m² para cada vaso com árvores de porte médio ou maiores.

A finalidade das raízes, além da fixação, é a absorção de água e nutrientes. Temos que ter em mente que quando plantadas diretamente no solo, a exploração do espaço é muito ampla e em recipiente fechado, isto fica bastante limitado. Como consequência, o tamanho da planta também ficará limitado ao tamanho do vaso. A necessidade de irrigação e adubação, da mesma forma, irá aumentar.

Espécies muito vigorosas ou de crescimento muito rápido devem ser evitadas pois logo não se ajustarão e irão quebrar o vaso. Isto exigiria trocas constantes para recipientes maiores. Uma altura média ideal seria entre 1,5 a 2,5 m. Mas para cada local deve-se fazer um estudo. Escolha árvores que tenham crescimento lento ou moderado e que aceitem bem podas. Plantas que crescem até 30 cm por ano são consideradas de crescimento lento. Já um acréscimo anual de 30 a 60 cm indicam plantas de crescimento moderado.

Como exemplo, a nível de frutíferas, poderia ser citado: figo, pitanga, acerola, goiaba, araçá, cítricos, jabuticaba, bacupari, seriguela, romã, anonáceas, ameixa da mata, guabiroba, cereja do rio grande, cambuci, grumixama, cabeludinha, uvaia, entre tantas. Outras como ipês, pau ferro, pata de vaca, sibipiruna, canafístula, etc, que são maiores, também podem ser utilizadas, mas com os devidos cuidados para se manterem vistosas e saudáveis.

O vaso
: Os vasos que encontramos no mercado são de vários tamanhos e formatos. Esta diversidade dificulta a mensuração de volume mas o diâmetro é um bom parâmetro. Alguns informam o volume, o que ajuda muito. Selecionar o tamanho certo para a árvore que se pretende estabelecer é muito importante para proporcionar às raízes o espaço adequado para seu desenvolvimento.

Há duas situações que percebo nesta escolha:

1) Estima-se a altura que a árvore deverá atingir e optamos por um vaso definitivo. Para o tamanho até 2,5m, citado anteriormente, um diâmetro de 50 – 70 cm com profundidade similar estaria bem. Para árvores com tamanho menores, dimensões de 30 – 50 cm, tanto de diâmetro como de profundidade, seria o suficiente.

2) Inicia-se com uma planta pequena e periodicamente, vai-se trocando o vaso para tamanhos maiores, compatíveis com seu crescimento. Mas sempre devemos começar com um vaso no mínimo o dobro daquele em que a planta se encontra. Esta troca pode demorar um ano ou mais, dependendo das condições da árvore e do local.

Na dúvida, sempre é melhor escolher vasos maiores do que menores. Mas, no inicio, o vaso precisará de no mínimo 15 – 20 litros de volume para que as raízes possam se desenvolver bem. Existem também nas lojas do ramo, recipientes chamados de macetas (embalagem para mudas). São vasos plásticos reciclados, de consistência flácida, de diversos tamanhos e custo baixo. Servem de local intermediário para a planta, entre o desenvolvimento inicial até o plantio em local definitivo. Nas floriculturas e viveiros produtores é o recipiente mais utilizado. Se a pessoa tem espaço em sua casa ou propriedade, é possível cultivar, por longos períodos, árvores de qualquer porte. Desde que sejam adubadas periodicamente (por volta de 4 vezes ao ano) e tenham a maceta trocada por outra maior quando necessário.

Voltando aos vasos, restaria ainda comentar sobre os materiais utilizados. São muito variados. Cerâmica e concreto (vitrificados ou brutos), fibra de vidro, plástico, resinas, etc. Esta escolha dependerá da planta e do local. Ambientes ventosos exigirão materiais mais pesados e com diâmetro maior que a profundidade, para propiciar mais base.


Drenagem : É o processo de escoamento da água de irrigação (ou da chuva) que entra no vaso. Sua importância é muito grande pois sem fazê-lo a água se acumularia no fundo, ocasionando o apodrecimento das raízes. Na base deve haver pelo menos um furo. Se tiver mais melhor. 

Na sequência, coloca-se uma camada de 3 a 5 cm de brita ou argila expandida no fundo do vaso, tendo o cuidado de proteger o furo com algo maior, como um caco de telha ou pedra. Isto porque pode acontecer de alguma das bolotas de argila cair no furo e trancar a saída da água. Após, coloca-se o bidim. É um feltro poroso composto de milhares de filamentos sintéticos feitos da reciclagem de garradas pet. Sua finalidade é permitir que a água saia sem a perda de terra e servindo de barreira para que as raízes não atingirem o material drenante. Pode-se também colocar o bidim no fundo do vaso, abaixo das britas (ou argila). Claro que sem abdicar daquele colocado acima do material de drenagem.

A terra : Antes de tratar do item propriamente dito, gostaria de tecer algumas considerações sobre os tipos de “terra” oferecidos no mercado. Bem como alguns conceitos. Penso que há uma grande confusão sobre isto, ideias divergentes e, às vezes, equivocadas.

Pelo que aprendi na faculdade, o termo substrato vem do latim: sub (embaixo) e stratu (camada). Ou seja, é o que está abaixo de uma camada de qualquer natureza. Sua função é a fixação e desenvolvimento das raízes para propiciar o crescimento de uma planta. Já solo (ou terra), agronomicamente, é definido como uma mistura de rochas decompostas (processo que leva milhares de anos), organismos vivos, húmus (matéria orgânica em decomposição ou já decomposta), ar e água. A terra é o meio onde as plantas fixam as raízes e se nutrem. Assim, parece claro a meu ver que a terra é um substrato.

No entanto, à nível de comércio, estabeleceu-se uma diferença entre os termos. Terra é aquela que está na natureza e substrato é todo o material usado para o cultivo das plantas que não contenha a terra in natura. A partir destes dois conceitos fundamentais existem outros termos agregados que estão no dia a dia do mundo da jardinagem. E merecem ser estudados.

A terra vegetal ou orgânica ou preta é uma combinação da terra natural e matéria orgânica. Pode ser uma formação espontânea (pela decomposição de restos vegetais como folhas, galharias e frutos) ou pela adição de materiais orgânicos (como estercos, turfas, etc). No caso de ser de formação natural, geralmente a matéria orgânica tem camada bem superficial e, em um espaço de tempo curto, deverá receber um acréscimo nutricional com adubação.

Terra adubada é uma mistura de terra natural mais compostagem (ou outro adubo orgãnico) e/ou fertilizantes químicos.

Composto é o produto oriundo da decomposição de matéria orgânica. Pode ser de restos de cozinha, de podas, resíduos de culturas, etc. Todo o composto necessariamente possui etapas de decomposição e fermentação. Possui características físicas, químicas e biológicas que beneficiam a terra. Não deve ser usado isoladamente no cultivo de plantas, sempre misturado com o solo. Podem ser melhorados com a adição de cinzas, cascas de ovos moídas, etc.

Substrato é uma composição de diferentes materiais orgânicos e inorgânicos misturados. Proporcionam boa aeração, nutrientes e condições de desenvolvimento das plantas. Não contém terra natural e apresentam algumas vantagens por isto, bem como alguns inconvenientes. As vantagens são a leveza e a ausência de pragas e patógenos. A desvantagem maior é que com certeza há carência de algum elemento essencial que a terra naturalmente possui. E também substituem a terra apenas por um certo tempo pois não conseguem reter água adequadamente podendo gerar desidratação nas plantas se não irrigadas com a frequência necessária.

Condicionadores de solo são produtos que melhoram as condições e propriedades físico-químicas e biológicas do solo. Estas propriedades do solo incluem capacidade de troca de cátions, ph, retenção de água, compactação entre outras. Os condicionadores reparam os danos causados ao solo e ajudam a manter a qualidade necessária para a vida da planta.
Os condicionadores podem ser sintéticos, naturais, orgânicos e inorgânicos. Como orgânicos podemos citar a farinha de osso, compostos, palhas, vermiculita. Já o calcário, resíduos de siderurgia, fosfogesso são inogânicos.

Turfa é o produto da decomposição vegetal ao longo de milênios que deposita-se em camadas, sob certas condições. Incorporada ao solo, melhora as condições físico químicas do mesmo. Atualmente vem sendo muito utilizada na mistura de condicionadores de solo.

Húmus é uma camada na superfície da terra constituída pela decomposição total ou parcial de plantas e animais.

Húmus de minhoca é simplesmente o esterco de minhoca. A minhoca ao digerir a matéria orgânica em decomposição, absorve 40% deste material e o restante vira húmus. É um adubo que ativa o crescimento das plantas pela presença em sua composição de hormônios de crescimento e ácidos húmicos. Considera-se também que possui capacidade de controlar pragas e doenças, principalmente fungos. Possui cerca de 1,5% de N, 1,3 de P e 1,7 de K, além de Ca, Mg e inúmeros micronutrientes. Melhora as condições físico, química e biológica do solo.

Inoculante é um produto que introduz no solo microrganismos que fixam nutrientes para uso pelas plantas. A fixação de N é o mais comum. É altamente ecológico pois é um processo natural. Já a utilização de adubos nitrogenados emitem a cada cem kg aplicados no solo, uma tonelada de gases que causam o efeito estufa.

Talvez faltem algumas definições mas acho que o acima exposto já pode ajudar bastante. Ainda teria a salientar que dentro de uma classificação de corretivos do solo, podem existir produtos que se enquadram em mais de um conceito. O produto precisa ser avaliado por sua atuação no solo. Assim, quando os corretivos tomam o aspecto de fertilizante, inoculante ou condicionador de solo, devemos claramente definir o seu objetivo.
Voltando ao plantio de árvores, através da prática e observação, fui modificando o conteúdo dos vasos com o tempo. Hoje faço uma mistura de turfa (40%), barro adubado (20%), húmus de minhoca, esterco de galinha ou bovino (40%), mamona e pó de pedra basáltica (em quantidades menores) . Além disto acrescento NPK, em dosagens não muito elevadas e variando se for plantio ou manutenção. Em plantas mais exigentes em drenagem misturo uma parte de areia de rio lavada.

O plantio : Acima do bidim vai uma camada de terra e, na sequência, a planta com o torrão (o mais intacto possível). Lateralmente preenche-se com terra e aperta-se para a planta ficar bem presa. Verifica-se para que esta fique bem centralizada e vertical. Geralmente deixa-se o nível da superfície a uns 2-3 cm da borda do vaso. É opcional, mas recomendado, que haja alguma cobertura (como cascas de Pinus ou alguma matéria orgânica). Isto além da estética, protege o solo e mantém por mais tempo a umidade. E impede que respingos de terra sujem o chão ou a parede quando das regas.
O vaso deve ficar exposto a luz solar no mínimo de 4-6 horas. E, se possível, protegido dos ventos predominantes. Há também a questão da troca de vasos. O tamanho de uma árvore é normalmente proporcional ao seu sistema radicular. Assim, a cada 4-5 anos ou quando houver perda de vitalidade, deve-se fazer um replantio para um vaso maior ou no mesmo. Nesta ocasião poda-se algumas raízes que estão excessivamente enroladas, preenchendo-se com terra nova e irrigando diariamente por uma semana.

Irrigação : Possivelmente este seja o item mais importante ao cultivarmos árvores em vasos. Elas secam mais rapidamente do que quando plantadas no chão. Assim, precisam ser irrigadas mais vezes. Em geral, dependendo do clima da região, rega-se 2-3 vezes por semana. Até mais em verões muito quentes. No inverno, quando as plantas estão mais dormentes, necessitam menos água. Quanto menor for o vaso, mais importante será estarmos atentos a uma irrigação regular.

Adubação : É recomendado adubar a cada 3 meses. Um vaso tem um espaço reduzido de exploração de nutrientes pelas raízes. Diria que é um dos segredos do sucesso no plantio de árvores em vasos. Se faltam nutrientes, não apenas a planta mostrará sinais de falta de vitalidade, como também suas raízes poderão quebrar o recipiente. Isto porque no intuito de buscar novos espaços para sua nutrição, as raízes esbarram na parede dos vasos, forçam e os quebram.
Costumo fazer uma mistura organomineral e colocar sobre a superfície do vaso, molhando em seguida. Uso turfa + matéria orgânica (húmus de minhoca e ou esterco de galinha) + torta de mamona e pó de rocha basáltica, além de NPK 10-10-10 (1-2 colheres de sobremesa rasas / vaso).

Existem várias outras opções de fertilizantes que podem ser também utilizados. Mas importante é que se faça uma mistura que contenha além de NPK, os principais micronutrientes. No caso de matéria orgânica lembrem-se que não podem ser usadas puras. O ideal é de 30 a 50% da mistura. no caso de esterco de aves 30%.

Pragas e doenças : Mesmo que tenhamos todos os cuidados, ainda assim podemos estar sujeitos a pragas e doenças específicas para a árvore que cultivamos. Como lesmas, formigas, pulgões ou fungos. Neste caso, tomam-se as medidas indicadas para tal. Exige estudo profundo e pretendo ir abordando estes temas com o tempo.

Referências :
– Off the Grid News – Eight  advantages to container gardening
– Orange pippin trees.UK – Growing fruit trees in pots and containers
– Green Prophet – How to grow an olive tree in a container
– City of Sidney – Tips for growing trees in pots
– Paisagismo e jardinagem – aplicações do Bidim 
– Sistemas de produção – Substratos – Embrapa
– Life under your feet – What is soil
– Substratos – Cirilo Gruszynsky (Cultivo de flores)
– What Is Your Substrate Trying to Tell You Part I – Robert R. Tripepi – University of Idaho
– Turfa, húmus ou terra vegetal? – Jardim das idéias – Raul Cânovas
– Descubra o que a turfa é -Pensamento verde
– Condicionadores de solo – Agência Embrapa de informação tecnológica – Shizuo Maeda
– What is soil conditioner? – Mike Usry – Southland Organics
– Soil conditioner – Departament of Agronomy kansas State University – John Hickman
– Inoculantes e a sustentabilidade da agricultura – Embrapa agrobiologia
– Húmus de Minhoca: o adubo orgânico mais nobre do planeta – Fábio Morais
– Fotos dos vasos: Verde & Cia Garden Center – Florianópolis