Uma relíquia: projetor de filmes à manivela

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Recentemente li uma reportagem sobre achados arqueológicos na antiga muralha de Adriano na Inglaterra, divisa com a Escócia. Era uma estrutura que demarcava a fronteira do Império Romano e servia como proteção contra as invasões vindas do norte. Começou a ser construída há uns 2000 anos. Ao longo desta muralha, em espaços bem definidos e estratégicos, torres de observação eram montadas e junto a estas se formavam pequenas vilas. Os soldados estabeleciam famílias e existiam boas condições de vida, incluindo um eficiente sistema de comunicação (Correios) entre as comunidades e também com Roma.

Os trabalhos de escavação nos sítios arqueológicos continuam até hoje. Tanto no Museu Britânico, em Londres, como em museus locais pode-se ver objetos (sapatos, bolsas, pentes, etc) e cartas (escritas em lâminas finas de madeira). É maravilhoso poder ler o descritivo do dia a dia das pessoas de tantos séculos atrás, reclamando do clima, descrevendo suas festas, falando dos presentes que chegaram da capital, convites para aniversário, intrigas… Algo de pessoas como nós, a vida humana de um outro tempo. Preservar a história é quase um dever de cada um.

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Bem, escrevi esta introdução para explicar esta peça que aparece nas fotos e que acabo de restaurar. É um projetor de filmes 35 mm, um brinquedo lançado na década de 1930. Estava a limpar uma pequena sala em minha casa (onde guardo ferramentas e vários utensílios), quando encontrei esta relíquia dentro de uma caixa. Estava em um estado deplorável. Perguntei-me como que alguém como eu, que ama arqueologia, abandonou algo tão significativo.

O brinquedo originalmente era de meu pai, mas também foi meu durante a infância. Recentemente, conversando com tia Marisa (irmã de meu pai) obtive algumas informações sobre o objeto. Minha família é natural de Rio Pardo RS e meu saudoso avô Germano Wunderlich costumava viajar até Santa Cruz, a cidade mais próxima. Numa destas idas, meu pai (o então menino Frederico) ficou hipnotizado, na vitrine de uma loja, pelo projetor. Mas meu avô não quis comprar. Durante o trajeto de retorno para Rio Pardo, ele chorou tanto que não houve jeito : voltaram para pegar o brinquedo. Foi tão grande a afinidade com o projetor que Marisa reunia suas amiguinhas para sessões caseiras de cinema, onde Frederico empolgado acelerava a manivela. Qualquer pedaço de filme , conseguido no cinema local, era motivo de grande empolgação. Penso que foi a revelação de um talento, pois até hoje ele gosta de imagens, mostrando-se um excelente fotógrafo.

É uma pequena história, coisas simples que acontecem com todos nós. Mas fiquei muito feliz em ter salvo lembranças que fatalmente se perderiam. Quem sabe este objeto não possa durar também uns 2000 anos! E no futuro distante um investigador abra janelas no tempo, revelando pedaços de nossas vidas e enriquecendo esta rápida passagem humana por este planeta incrível…

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