Substratos em orquídeas

Substrato no cultivo de orquídeas é aquele material que serve, principalmente, de suporte para a fixação das raízes , além de fornecer alguma fonte de nutrientes e ter capacidade de reter água. Os substratos devem permitir boa circulação de ar e rápida drenagem.
Categorias
Quanto ao substrato, as orquídeas podem ser divididas em algumas poucas categorias: terrestres, rupícolas e epífitas. As terrestres desenvolvem-se nos solos das florestas, vivendo das folhas e galhos em decomposição. As rupícolas fixam-se sobre rochas, geralmente formando touceiras sobre as pedras. E a grande maioria são as epífitas que vivem fixadas nas cascas das árvores (sem prejudicá-las) retirando nutrientes através de raízes que são cobertas com camadas de células brancas chamadas velame. Este velame age como uma esponja para absorver a água e protege as raízes do calor e perda de umidade.

DSC01241

Ilustração de  Carl von Ossietzky da Universität Oldenburg – Alemanha

Epífitas e seu habitat natural
O hospedeiro apenas fornece suporte para as orquídeas que retiram nutrientes da superfície da árvore e da água da chuva. As raízes adventícias surgem do rizoma e cumprem a função de fotossíntese, absorção e armazenamento de água e nutrientes. As raízes destas epífitas contém cloroplastos para absorver a luz solar e por isto são verdes. Os pseudobulbos acumulam carboidratos, o que permite florescimento e crescimento em épocas secas. Já as folhas, são os órgãos primários para a fotossíntese e algumas são grossas e suculentas. É interessante o mecanismo evolutivo desenvolvido por estas folhas para situações de seca. A abertura dos estômatos para absorver o dióxido de carbono sempre gera perda de água. Para impedir que isto ocorra há um mecanismo que permite a absorção do dióxido de carbono à noite quando a umidade relativa é alta. Este composto é armazenado nos vacúolos e usado durante o dia para a fotossíntese.
Uma vez que vivem embaixo da copa das árvores, em relação ao sol, a luz é parcial, com vários gradientes. Na natureza, uma orquídea não irá se desenvolver em condições de luz que não seja a sua. E isto é fundamental de ser seguido quando as levamos para um orquidário.

phaius-orchid

Já as sementes, no meio natural, são espalhadas pelo vento e são pequenas como um pó, carecendo de cotilédones. Isto faz com que não tenham substância de reserva. A solução foi uma interação com fungos que penetram a semente e alimentam o embrião. Nas espécies terrestres e rupícolas também ocorre esta simbiose.
Orquídeas que vivem em árvores requerem excepcional drenagem e aeração. Elas preferem ficar bem secas antes de nova irrigação. Assim, quando fixamos uma epífita em um pedaço de tronco, estamos dando a condição mais próxima do natural. O uso de vasos precisa respeitar estas duas condições: drenagem e aeração. É por isto que há a necessidade de trocar o substrato a cada 2-3 anos pois a parte orgânica se decompõe e fica com uma granulometria similar à terra, o que foge das condições citadas.
Tipos de substratos
Há uma quantidade enorme de materiais que podem ser combinados para formar o substrato dos vasos. Mas como já mencionado, importante é a capacidade para reter água e nutrientes e ter uma superfície adequada para as raízes se fixarem. Em geral é recomendável que seja balanceada entre componentes orgânicos e inorgânicos. Mas, cada um deve achar a melhor situação para o seu orquidário, sua região climática e as espécies que está cultivando. Tentarei analisar alguns substratos com os quais já lidei e posso emitir alguma opinião. No entanto, é certo que um bom tempo de observação é necessário para avaliar um determinado procedimento no cultivo de orquídeas. Pelo menos elas geralmente aguentam nossos erros e tentativas, possuindo muitos mecanismos de sobrevivência. Apesar que perder algumas plantas, eventualmente, faça parte do aprendizado.
Cascas de árvores – Existem no Brasil vários tipos de cascas que podem ser utilizadas como substrato, muitas encontradas apenas regionalmente. Duas são bem populares: a casca do Pinus e a da Peroba. A casca de Pinus é barata , facilmente obtida e retém água razoavelmente. Tem o inconveniente de possuir tanino (precisando ser curada) e se degradar rapidamente (cerca de 1-2 anos). Já a casca de Peroba tem maior durabilidade (até 5 anos) e retém pouca água. Por isto exigem mais regas. Já é mais difícil de adquiri-las, talvez em locais onde a árvore tenha seu beneficiamento. A Peroba forma excelentes troncos para fixar orquídeas.
Para cascas em geral, no comércio são oferecidas em tamanhos desde lascas bem pequenas até as mais grosseiras. E a desvantagem fica por conta da decomposição rápida e consequente compactação, o que aumenta a umidade podendo apodrecer as raízes. A troca de vaso , assim, precisa ser feita com muita frequência.

Casca-de-Pinus-1

Carvão vegetal – É aquele normalmente usado para fazer churrasco. É indispensável que seja novo pois aqueles que já foram usados podem prejudicar a planta. Sua composição química e capacidade de absorver água é variável segundo a espécie usada. Bem comum são os de acácia negra.
O carvão permite boa circulação de ar e drenagem. Retém água de forma moderada, permanecendo sem se degradar por cerca de 2-3 anos. O carvão é poroso e absorve minerais de interesse para a planta tanto quanto substâncias nocivas como resíduos de fertilizantes , defensivos agrícolas ou substâncias tóxicas. Portanto seu uso precisa ser moderado.
No entanto, é um elemento tradicional nas misturas para substratos. Existem pessoas que defendem seu uso alegando inclusive que tem efeitos anti-bacterianos. Há pesquisadores que constataram que há certas toxinas liberadas pelas raízes das orquídeas que seriam filtradas pelo carvão. Por outro lado, existem cultivadores que não o recomendam alegando inclusive a sujeira que gera seu manuseio.

carvao

Fibras – As mais conhecidas são o xaxim e o coco. O xaxim (Dicksonia sellowiana) é uma pteridófita (samambaia) de cujos troncos se faziam vasos para a fixação de plantas (incluindo orquídeas). Mas por causa de uma exploração sem critérios, entrou em ameaça de extinção. Portanto, hoje está fora de cogitação.
Já a fibra do coco é obtida dos frutos que são desfibrados. Após são moldados em diversos formatos como vasos, placas ou bastões. Entre suas vantagens está uma boa capacidade de reter água, custo baixo, leves, fáceis de encontrar e considerável durabilidade. Mas também existem aqueles que não gostam do produto alegando acúmulo excessivo de umidade, presença de tanino (que queima as raízes) e, ao longo do tempo, as orquídeas param de crescer.

casca-coco-04

Esfagno – É um musgo que se desenvolve em riachos, açudes e superfície de pântanos. Não sendo cultivado é extraído nestes locais. Isto os colocará logo em ameaça de extinção. Basicamente há o esfagno nacional e o chileno. Este último tem cor rosada em contraste com o outro que é claro (creme). Contém um antisséptico que inibe o crescimento de fungos.
Sua característica principal é a conservação de grande quantidade de água, secando lentamente. Assim, é muito usado em mudas novas e plantas que necessitam boa umidade. É ideal para salvar orquídeas que perderam suas raízes e precisam de recuperação. Para quem utiliza um substrato com base no esfagno, a irrigação deve ser criteriosa para não ocorrer excessos que causariam o apodrecimento das raízes. E é bem comum fornecedores de orquídeas não explicarem como cuidar das plantas cultivadas neste meio. Em condições de irrigação controlada e protegidas da chuva, dificilmente as plantas terão problemas. Mas ao comprar uma muda com esfagno (que estava em local coberto) e a colocarmos na rua, possivelmente haverá perdas em períodos de chuva continuada.
Nos Eua também há relatos de plantas cultivadas em substratos à base de esfagno que morreram pelo uso de adubos líquidos colocados diretamente no substrato. Isto porque o esfagno absorve a maioria da água (e o adubo fica junto) e ao evaporar fica uma alta concentração deste adubo, o que queima as raízes.

esfagno do Chile

Pedras – Geralmente são usadas britas, encontradas em lojas que vendem materiais de construção. Possuem várias granulometrias. É um material inorgânico que evita problemas normalmente comuns em outros substratos. Para começar, a competição por nitrogênio e outros elementos por parte de vários organismos (comum nos substratos orgânicos) desaparece. Como as britas são materiais inertes não se decompõem, evitando as frequentes trocas de vasos. E mesmo quando há necessidade de troca, pode-se reutilizar o substrato, após devida esterilização. Desta forma, o substrato com brita é muito atrativo principalmente em áreas com regime de chuvas intenso. Em locais mais secos a irrigação precisa ser mais frequente. As raízes das orquídeas se enraizam muito bem em pedras mas com sol muito intenso podem gerar aquecimento excessivo no substrato e queimar as raízes. Nestes casos é bom colocar um pouco de esfagno sobre as britas. Cattleyas e Laelias adaptam-se muito bem em brita.

brita

Turfa – É um material formado pela decomposição de musgos e vegetais acumulados em locais pantanosos e áreas alagadiças. Para epífitas, peneira-se a turfa para pegar os torrões maiores. É um conservador de umidade e rico em nutrientes. Mas tem um grande defeito, que é a rápida degradação, ficando como terra, deixando o conteúdo do vaso denso, sem aeração e facilitando o apodrecimento das raízes. Já para orquídeas terrestres é eficiente.
Argila expandida – São bolotas de argila feitas pelo homem. Não apodrecem, formam boa aeração e retém muita umidade. É ideal para misturas ou para colocar no fundo do vaso como drenagem.

argila

Cacos de cerâmica – São tijolos, telhas e vasos de argila quebrados em pequenos pedaços. São duráveis, conservam umidade, e proporcionam aeração. Mas além de não possuírem nutrientes, com o tempo, podem abrigar fungos. Como na argila expandida, é bom para drenagem ou em alguma proporção em misturas.
Caroços – O uso de sementes (açaí, amêndoa, etc) tem aumentado ultimamente principalmente no norte do país. É um material abundante e barato nesta região mas tem a desvantagem de decompor-se muito rapidamente, além de precisar secar os embriões para que não germinem.

açaí

Minerais – Principalmente são utilizados perlita e vermiculita, que são minerais de origem basáltica e vulcânica. Tem grande expansão ao serem aquecidas. Possuem uso industrial e agrícola. No caso das orquídeas, pode ser um componente do substrato. Conserva água e aumenta a aeração.

vermiculita-grossa

Vermiculita

perlita

Perlita

Considerações finais
Resumindo, formular um substrato acaba sendo uma tarefa que reúne muitos elementos, desde o tipo de planta e vaso que estamos usando, os materiais disponíveis e o clima da região, até as preferencias pessoais. Já fiz experiências com vários substratos e num próximo texto pretendo falar especificamente sobre o uso da brita. Exclusivamente brita! E vem dando certo.

Anúncios

3 comentários sobre “Substratos em orquídeas

  1. Muito esclarecedor este artigo! Gostei muito!

  2. Eu tenho uma orquideas oncidium num vaso de barro como substrato coloquei um pedaço de tronco de arvores e pedaços de galhos de coqueiro que não guarda umidade, mas ela não se desenvolve e não dá brotos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s